Práxis contra-hegemônica e jornalismo de resistência

Publicado em: 09/10/2019

do Objethos

 

 

Clarissa Peixoto
Mestranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

A crítica ao jornalismo tradicional não se restringe a uma reação à falta de rigor diante de um conjunto de concepções teóricas. Cabe a ela observar, em uma perspectiva histórica, os interesses econômico-políticos que antecipam a atividade jornalística e a direção ideológica que funda a sua própria teoria. Nessa perspectiva, o jornalismo está condicionado à realidade material, objetiva, atuando como agente para transformá-la e sofrendo as modificações que ela impõe. É uma arena da disputa de ideias, com capacidade de influenciar a sociedade, convencionando determinada visão de mundo e estimulando uma certa lógica de pensamento e ação.

Do ponto de vista teórico, os valores dominantes das escolas norte-americanas e europeias foram assimilados no Brasil, onde a herança colonial e escravocrata também foi decisiva para orientar um modelo hegemônico de práxis jornalística. Moretzsohn (2017) afirma que essa tradição é responsável por determinar a política e o cotidiano, refletindo “a ausente, ou pelo menos muito débil e episódica, participação ativa dos cidadãos na vida pública”. Para a autora, a cultura do silêncio está enraizada neste passado colonial1

Na compreensão gramsciana, uma hegemonia é resultado da vontade coletiva de um bloco social dominante, articulado por uma perspectiva ideológica. No entanto, ela não é estanque; é sempre passível de resistência. Essa tensão social tem reflexos no jornalismo, estimulando o avanço de outros atores e canais de contestação. Para Gramsci, diferente do “jornalismo burguês”, que vende a ideologia de forma subliminar, esse outro jornalismo procura revelar a ideologia dominante e atuar para a construção de uma reforma intelectual e moral na sociedade, baseada em novos valores.

A crítica gramsciana rechaça o modelo de jornalismo que noticia os fatos a partir de uma pretensa imparcialidade e defende o jornalismo que se posiciona criticamente, sustentado no conhecimento que é capaz de gerar. Nessa lógica, o jornalismo enquanto instrumento para a luta contra-hegemônica atuaria para desestabilizar as estruturas hegemônicas de poder. Seu objetivo seria formar uma opinião consciente que, não necessariamente geraria consenso, mas que confrontaria os fatos e os interesses em jogo.

No Brasil, as experiências jornalísticas que buscam se diferenciar de certo padrão estabelecido fazem parte do que se convencionou chamar de   “imprensa alternativa” – ela pode ser identificada também como jornalismo ou veículos de jornalismo independentes, à margem, populares. O surgimento dessas iniciativas é recorrente ao longo da história, no entanto, com a internet, elas encontraram novas oportunidades para produzir e circular conteúdo.

Considerando a diversidade política e editorial desses grupos e veículos, suas atuações, em geral, procuram se balizar em pressupostos éticos da profissão, mas também em visões de mundo dissonantes daquelas reproduzidas pelo jornalismo alinhado aos interesses dominantes. Essa outra possibilidade de pensar e fazer o jornalismo reflete, em alguma medida, os movimentos de resistência articulados pela sociedade civil organizada. A partir da noção de hegemonia de Gramsci, essas experiências jornalísticas seriam instrumentos da luta contra-hegemônica?

Os veículos alternativos que se colocam como dissonantes dos veículos tradicionais de jornalismo representam uma variedade de compreensões sobre o papel do jornalismo. Eles vão desde aqueles que propõem uma ação mais militante e organizada, como veículos de partidos e alguns movimentos sociais (o jornal do MST, por exemplo, mais diretamente ligado à militância política); passam pelos canais ligados aos movimentos de ativismo em comunicação, que mesclam jornalismo, ciberativismo e midialivrismo, até aqueles veículos que não atuam em relação direta com a ação político-militante, mas buscam se diferenciar dos veículos tradicionais por mais rigor metodológico na produção jornalística e independência editorial de grandes grupos econômicos e políticos.

De todo modo, esse conjunto de iniciativas reflete também a crise de credibilidade que atinge o jornalismo em esfera global, submetido, agora, “às novas lógicas sociais, de mercado e tecnológicas, fortemente influenciadas pelas interações promovidas pela sociedade em rede”. No Brasil, a crescente desvalorização do trabalho para profissionais do jornalismo é outro aspecto que impulsiona a criação de alternativas. A multifuncionalidade, os vínculos precários e as demissões frequentes são fatores que obrigam os jornalistas a buscar novos caminhos para se manterem na profissão. Soma-se ao contexto, a concentração da mídia, que atinge o patamar de oligopólio, comprometendo a pluralidade do pensamento, necessária para as sociedades democráticas2.

Refletindo sobre a atualidade brasileira, a resistência – entendida como luta contra-hegemônica – passa pela denúncia de desmonte do Estado e dos serviços públicos, pela defesa dos direitos sociais e dos princípios democráticos ameaçados pelo totalitarismo de caráter fascista. Responder a pergunta sobre o papel contra-hegemônico da “imprensa alternativa”, requer expandir o olhar sobre sua práxis jornalística como mais consistência.

A priori, no atual estágio da luta por uma transformação social mais profunda, o conhecimento jornalístico produzido por essas experiências pode ajudar a conter a escalada de retrocessos. A seu modo, elas podem participar da mobilização social em torno de valores inclusivos, questionar os falsos entendimentos, convencionados a partir da ideia de neutralidade e denunciar governos e instituições que atacam os direitos sociais e a precária liberdade democrática que conquistamos.

Notas

1MORETZSOHN, Sylvia Debossan. Contra o capital, em nome da humanidade: o sentido ético e político da luta pelo direito à informação. International Review Of Information Ethics, v. 26, n. 1, p.104-111, dez. 2017.

2PEIXOTO, Clarissa do Nascimento. Portal Catarinas: estudo de caso de Jornalismo de Novo Tipo. Vozes e Diálogo, v. 18, n. 1, p. 47-60, jan/jun. 2019. 

Fontes

ASSIS, Evandro de; CAMASÃO, Leonel; SILVA, Mariana Rosa; CHRISTOFOLETI, Rogério. Autonomia, ativismo e colaboração: contribuições para o debate sobre a mídia independente contemporânea. Revista Pauta Geral: Estudos em Jornalismo, Ponta Grossa, v. 4, n. 1, p.3-20, jun. 2017.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. 2 v.

________. Cadernos do Cárcere. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. 1 v.