" A arte existe para que a realidade não nos destrua" (por Roselaine Bitencourt)

Publicado em: 09/10/2019

" A arte existe para que a realidade não nos destrua"

 

por Roselaine Bitencourt (*)

Se não me engano é uma frase de Rubem Alves, e é com ela que inicio esse texto. Explico por quê: há algum tempo venho prestando atenção na programação exibida na Rede Globo de televisão e confesso a vocês que estou um tanto surpresa. Não sei se é ingenuidade minha ou reflexos de uma mente sonhadora, mas a grande emissora vem apresentando um lado muito crítico nos seus programas e eu fico até pensando o que será que está por trás; sim, porque historicamente essa mídia televisiva sempre serviu aos interesses dos grandes empresários, do agronegócio, os oligopólios, à política da politicalha. Mas duns tempos pra cá isso tem mudado estranhamente. E não apenas no que se refere ao entretenimento. O Jornal Nacional e o Fantástico, programas então jornalísticos na essência, vêm escancarando notícias que desmascaram o governo do presidente Bolsonaro. Não era característica da emissora levar ao telespectador o critério da dúvida, da incerteza sobre o que realmente acontece aos poderes constituídos da nação. Não sei o que estão pretendendo com isso, provavelmente já tem seu próprio candidato para 2022... Mas o fato é que para aquela parcela de telespectadores um pouco mais instruída e que assiste à TV aberta, o canal está se prestando a mostrar o outro lado da moeda.

O programa das noites de sábado, o Zorra, que ficou registrado em nossas mentes como Zorra Total tem se mostrado um imbatível e sonoro "Ele não" fazendo do seu humor aguçado uma forte crítica aos desmandos e gafes cometidas pelo presidente do laranjal. Isso se nota nas milhares de reproduções de trechos do programa nas redes sociais. E nesta terça-feira essa visão escrachada se tornou ainda mais evidente nos programas - Os filhos da Pátria, na sua segunda temporada e a nova série - Segunda chamada. O primeiro com humor mais cítrico mostra o Brasil dos anos 30 num contexto bem real, bem atual com tiradas nitidamente criticando o sistema de governo que estamos vivendo. Ou seja, o Brasil de ontem mesclado com o de hoje, para bom entendedor, como diria Rui Werneck de Capistrano, meia palavra não basta, e eles dão a deixa toda para que o telespectador mais atento consiga formar sua opinião sobre o que está aí. Que reflita sobre certo e errado dentro das construções sociais, políticas, econômicas, culturais, questões de gênero enfim, classes sociais, educação...

Revolução era o tema de hoje (O cocô do cavalo do Getúlio), deu o tom da sátira que me chamou a atenção a frase dita por um personagem, "quem em sã consciência fará uma revolução para o povo?" Pode ter várias interpretações, mas eu logo me lembrei no nosso cidadão honorário de Paris e possível Prêmio Nobel, ex-Presidente Lula, no cárcere político de Curitiba. Ele sim fez uma revolução para o povo e desordenou ou reorganizou um pouco a pirâmide desse país.

E na outra série, mini série que seja, foi bem soco no estômago do que se refere a nossa Educação. O enfoque do ensino público precário com todos os seus reveses de uma sociedade no mais completo caos. Alunos de todas as faixas etárias, situações de vulnerabilidade, de gênero, pessoas que se encontravam fora da escola e voltaram, outros que por algum motivo querem terminar os estudos mas nem sempre conseguem devido o atribulado do dia para estudar a noite. Mas que por algum motivo estão ali. De todas as raças de todos os credos. Retratos da nossa sociedade injusta.
E professores daqueles que realmente levam a sério o seu diploma e mesmo com tanta dificuldade tem na alma a paixão por ensinar e eu diria aprender junto com cada realidade apresentada pelos alunos. Um programa rico, intenso, crítico e consciente do seu papel transformador.

Vale a pena assistir. Com certeza teremos elementos suficientes de cabeça aberta para no próximo pleito escolher melhor nossos representantes.
E se for o caso de estarem nos preparando um elefante Branco, teremos capacidade cognitiva para distinguir o quê de fato queremos para nossos governantes. Se é aquele que quer apenas revolucionar a sua família e com um golpe às colocar no poder de qualquer jeito, para governar apenas para classe alta, ou se vamos optar por aquele que quer fazer a revolução para o povo. Sem privilégios a esse ou aquele filho de presidente, ministro etc. Essa corja toda que quer estar acima até do bem e do mal. Mas nós pessoas de bem teremos condições de filtrar e perceber quem realmente é do bem e quem está aqui para dar sequência ao que sempre foi esse país que não quer mudar suas origens retrógradas e totalmente corruptas. E não é a farsa jato que vai resolver. Nunca!

E então por hora vamos apreciar a arte da dramaturgia. Quem sabe não é daí que surgem os primeiros lampejos revolucionários. Do povo e para o povo! Avante! E sempre alerta!

 
(*) Roselaine Bitencourt é jornalista.