Desmilitarização (por Adalberto Paulo Klock)

Publicado em: 26/11/2019

Sociedade de consumo

A quase unanimidade dos sociólogos entendem como a causa principal da violência a desigualdade social. Pepe Mujica diz que nós, quando trabalhamos, entregamos o nosso tempo de vida gasto no trabalho, e quando compramos algo, pagamos com tempo de vida. Por isso precisamos aprender a viver com pouco, desprender-se do consumo, pois o tempo de vida é a única coisa que o dinheiro não compra.

A nossa sociedade é capitalista/consumista e todos querem ter e ter, ter o que o outro tem. Ela idealiza a felicidade no consumo e no ter, ou na felicidade do ter. Mas a sociedade é absolutamente desigual, induzindo ao desejo no que se vê no outro, acarretando a busca pelo objeto do desejo mesmo sem condições monetárias para isso e, assim, a felicidade só se realiza com a posse dos objetos de consumo/desejo.

 

O consumo, como modelo, escraviza o indivíduo e produz o desejo efêmero das coisas, dos objetos. É o capitalismo do usa, joga fora e compra outro. Nessa busca desenfreada pelo consumo, o egoísmo se implanta e produz a desconsideração do ser, tornando-se mais importante o ter do que o ser.

Quando o ter é mais importante que o ser, então tudo é possível pelo ter, e nenhum padrão social implicará na diminuição da busca do ter (o objeto). Nem a vida humana será ou é mais importante nessa sociedade egoísta e consumista. Assim, alastra-se a violência, tornando tudo e todos objetos de consumo e de exploração pelas coisas.

Desmilitarizar

O projeto anticrime proposto pelo Moro trouxe à sociedade a discussão sobre a violência. Fugindo de tudo o que é científico (fato estranho a alguém que se diz jurista), propõe ele o recrudescimento da violência estatal, a autorização da morte sem julgamento e ao alvedrio do soldado de plantão. Nem a Justiça pode matar, mas o policial poderá julgar e matar, sem testemunhas, sumariamente e sem responder a ninguém.

Todas as experiências no mundo que seguiram esse receituário acabaram mal. A política de tolerância zero, empregada em Nova York pelo prefeito Rudolph Giuliani, nos anos 90, demonstraram que o violento combate ao crime não resulta em menos violência. Após décadas de aplicação dessa política de tolerância zero, em 2013 uma corte federal declarou a prática inconstitucional porque discriminava jovens negros e latinos, os mais abordados pelos policiais. A opção adotada então pelo atual prefeito Bill de Blasio foi uma polícia mais próxima da comunidade e menos repressora. Os adversários previram o caos e o aumento dos crimes. Ledo engano. A violência caiu. Com menos tiros e mais uso de armas não-letais, como as de choque, com ações específicas e combate a gangues ou bandidos reincidentes, que eram responsáveis pela maioria dos crimes, e com uma polícia mais próxima dos 8,5 milhões de moradores, a criminalidade continuou a cair. Hoje Nova York é segura como a 50 anos.

Mas, evidente, a diferença está também na infraestrutura fornecida e no número de policiais por habitante. Em Nova York há 1 agente policial para cada 250 habitantes. No Brasil há um para cada 473 habitantes.

Luiz Eduardo Soares, sociólogo e escritor, reitera: o recrudescimento da violência e a liberdade para matar pelo policial somente implicará em mais violência e corrupção das instituições, levando, ao fim, a perversão de todo o sistema, atingindo diretamente o cidadão que ficará refém das milícias e facções. Um exemplo é o das milícias. Quando a autoridade dá ao policial, lá na ponta, liberdade para matar ao invés de prender, esse policial pode matar ou não, e negociará a vida. E a vida é uma moeda que muito inflaciona. E esses nichos de policiais autorizados a matar se organizam anarquicamente dissociados da própria organização, e se automizam e vão se converter em grupos paramilitares, grupos de extermínios e até em milícias, mais organizadas, que funcionam como máfias.

Ao especialista, há necessidade de profunda reforma nas instituições policiais, primeiramente tirando a militarização da polícia e, posteriormente, buscando aproximar o agente policial da sociedade, sempre priorizando a busca de solução dos conflitos sem violência e sem emprego de métodos letais.

 

* Adalberto Paulo Klock é servidor público.