Oh, Deus! (por Adalberto Paulo Klock)

Publicado em: 03/12/2019

Oh Deus!

Meu velho professor Sólon Hoffmann, de quem lembro com carinho, dizia: devemos reverenciar o Novo e o Antigo Testamento. Pois antigo não é velho, mas antigo. O velho pode não ter valor, mas o antigo tem mais valor ainda, por ser antigo.

Entre o Novo e o Antigo Testamento há uma mudança de perfil. No Antigo Testamento os anjos e querubins estavam sempre com as asas sujas de sangue. Segundo o mórmon Steve Wells, no Antigo Testamento e “de acordo com os relatos do livro, o Todo-Poderoso é responsável por exatas 2 270 365 mortes, enquanto o coisa-ruim ostenta em seu currículo de maldades apenas 10 eliminados.” É uma goleada. E sem contar o dilúvio, mais de 30 milhões, segundo Steve. No Novo Testamento somente “3 pessoas foram mortas pelas mãos do Criador: o rei Herodes, Ananias e sua esposa, Safira”.

Mas estarrece a saga de Moisés. O povo judeu enfrentou caminhada, orientados por Deus, de quarenta anos vagando no caminho entre o Egito e Canaã (o Google Maps diz dar 7 dias a pé, isso sem o atalho pelo meio do Mar Morto). E na caminhada um belo dia Moisés subiu na Montanha e lá ficou por longo tempo – não se sabe quanto. Nesse tempo sem Moisés o povo, desorientado, e ainda lembrando dos costumes egípcios de infinitos deuses, onde viveram por 430 anos, resolveram fazer um bezerro de ouro para consagrar e lhes guiar. E Deus, vendo isso, disse a Moisés que castigaria seu povo (“Portanto, agora vai-te, porque a minha ira se acenderá contra eles e destruí-los-ei”), mas foi convencido por Moisés a não o fazer. Moisés retornou ao pé da montanha, trazendo as duas tábuas com os mandamentos, e ao ver a festa e alegria no acampamento, destruiu as duas tábuas e o bezerro de ouro e juntou os filhos de Levi: “27 E disse-lhes: ‘Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: ‘Ponham as vossas espadas, percorram o campo duma ponta à outra e matem, mesmo que seja o vosso irmão, o vosso amigo, o vosso vizinho.’  28 Eles assim fizeram e morreram naquele dia cerca de 3000 homens.  29 Moisés disse-lhes: “Hoje vocês consagraram-se para o serviço ao Senhor, porque souberam obedecer-lhe, mesmo quando isso significou matar os vossos filhos e irmãos. Por isso, ele vos abençoará grandemente.”

Logo após Moises subiu novamente na montanha por 40 dias e recebeu as duas tábuas, depois fez uma barraca onde só ele entrava para conversar com Deus, e ao sair dizia os desejos de Deus, que eram desde enfeites chiques à época, escravos e sacrifícios de crianças primogênitas e de animais, comida e riquezas de prata, ouro e pedras preciosas. Difícil é imaginar o que Deus queria com essas coisas.

E Deus toda hora recomendava aos hebreus, não adorem outros Deuses, só a mim. Eu sou o único Senhor seu Deus. Uai! Que outros deuses eram esses? Melhor seria ele ter dito não existirem outros deuses, só ele. Mas ...

Já no Novo Testamento temos um Deus benevolente, que quase não matou ninguém (apenas os três citados) e fez a opção pela pobreza.

Dizem que Jesus, no Novo Testamento, ensinava a simplicidade e a não exploração (Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me.). Em face disso a igreja Católica criou a Teoria Paternalista Cristã: o homem não poderia explorar outro homem e a cobrança deveria ser no limite do que foi concedido ao outro, sem juros ou acréscimos (coitados dos banqueiros!). Mas essa teoria econômica caiu em desgraça por volta do ano 1500 porque não justificava a exploração feita pela burguesia no novo sistema de produção da indústria, implicando no sentimento de pecado pelos fiéis católico da recente classe burguesa – novos ricos. Surge então a necessidade de nova teoria, a de que a riqueza não é pecado, pois, segundo Mateus “bem aventurados são os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus”. E Martinho Lutero, esquecendo a citação de Lucas (“Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” 18:25), adotou aquela citação como a nova formula para poder justificar o que Marx chama de mais-valia, ou seja, a exploração do homem pelo homem. A partir de então, ser rico e explorar outro não era mais pecado como sempre foi para a Teoria Paternalista Cristã, bastando ser pobre em espírito para não mais ser condenado ao inferno.

Já as igrejas pentecostais modernizaram a teoria criando a Teoria da Prosperidade, na qual os que progridem são os abençoados por Deus e os que não progridem são os abandonados por Deus. Mas recordem, quando Jesus disse vende tudo, ele não disse vende tudo e dê ao templo, mas sim aos pobres. Conclui-se que dessa tal Teoria da Prosperidade não há registro em lugar algum da Bíblia.

E toda essa longa história de quarenta anos de migração pelo deserto do povo hebreu, criadores originários da figura de um único deus, foi só por falta de GPS à época. Pois, se ele existisse, em 7 dias os hebreus estariam em Canaã. Moisés não subiria a montanha, por 40 dias, não ergueria sua barraca para conversar com Deus e este não precisaria pedir e receber doações e sacrifícios durante décadas, muito menos haveria a morte de três mil pessoas e mais de um milhão nas cidades que Deus disse limpar para a chegada dos hebreus, e quiçá os hebreus até passariam a cultuar os antigos e bondosos deuses egípcios.

Assim como a nossa política, justiça e sociedade andam loucas, a religião é uma coisa louca, se estudada.

*Adalberto Paulo Klock é servidor público.