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Quem é o inimigo?

Publicado em: 23/04/2020

do Jornal da UFRGS

 

 

 

por Thaís Furtado (*)

 

 

Outro dia, vi uma postagem em uma rede social que me deixou intrigada. Confesso que não costumo sair da minha bolha, mas, em época de pandemia, as trocas de mensagens são tantas que algumas acabam deslizando. “O inimigo não é o vírus, o inimigo é o jornalismo.” Estava lá, sem justificativa ou qualquer argumento. Uma frase solta num fundo colorido. Mas, afinal, por que uma parcela dos brasileiros enxergaria o jornalismo como um inimigo num momento em que ele é absolutamente fundamental? 

Eu sigo aqueles que consideram o jornalismo uma forma de conhecimento e também um discurso com características próprias. Para que os jornalistas consigam desempenhar seu ofício e produzir seu discurso de forma responsável, foram sendo estabelecidas práticas que devem ser cumpridas. 

Os que levam a profissão a sério seguem essas rotinas porque sabem que seu discurso precisa ser crível, caso contrário, não terá razão de existir. Isso porque o capital do campo do jornalismo, ou seja, o que há nele de mais importante e que o diferencia dos demais, como defende a pesquisadora Christa Berger, é justamente a credibilidade. 

É por isso que o repórter pensa em pautas socialmente relevantes, faz pesquisas sobre o tema que irá abordar, encontra as fontes mais reconhecidas sobre o assunto, busca visões diferenciadas, interpreta os fatos, escolhe a forma mais adequada de tratá-los e edita as informações de maneira criteriosa.

Tudo isso dá trabalho – muito trabalho –, mas é a forma mais honesta de buscar a credibilidade. E é importante dizer que o jornalista responsável tem um bom motivo para querer que seu discurso seja crível: ele entende que sua profissão é fundamental para o fortalecimento de uma sociedade democrática. Ele sabe que todo cidadão tem o direito de ser bem informado, até para poder tomar decisões às vezes bem práticas em sua vida. 

Mas, se o público não acreditar que as informações passadas pelo jornalista são verdadeiras, todo o esforço terá sido inútil. Essa “credibilidade percebida”, como define a jornalista Silvia Lisboa, é resultado de uma permanente negociação de sentidos entre o jornalismo e seu público. 

O que fez, então, com que uma parte da população brasileira deixasse de “perceber” a credibilidade do já legitimado discurso jornalístico e passasse a acreditar em uma frase solta em um fundo colorido, escrita sem nenhum critério, nenhuma pesquisa, nenhum suor, e que ainda por cima chama o jornalismo de inimigo? 

Talvez seja uma ilusão imaginar que as rotinas da profissão e a sua responsabilidade social estejam evidentes para todos. A “falta de credibilidade” do jornalismo pode se dar, em parte, pelo fato de que ele também é marcado – como qualquer discurso – por constrangimentos. 

O discurso jornalístico é sempre dependente das escolhas do jornalista, por mais objetivo que seja. Sempre haverá a escolha de uma fonte e não de outra, a opção por uma palavra e não por outra, o destaque de um tema e não de outro, e essas decisões importam.

 Além disso, o jornalismo está submetido, como pontua, entre outros, a pesquisadora Marcia Benetti, a constrangimentos políticos, econômicos, estruturais, hierárquicos, temporais e éticos. É claro que faz diferença, por exemplo, se o veículo tem verba para enviar um repórter para um local distante, ou se a entrevista terá que ser feita por telefone, longe do acontecimento. 

A grande questão é que, em um jornalismo responsável, esses constrangimentos não se sobrepõem ao esforço da busca da credibilidade. E aí cabe um mea culpa da imprensa, que, ao não deixar claras suas escolhas inevitáveis e muitas vezes tomar decisões inadequadas, abriu espaço para que fosse duramente criticada. O jornalismo não pode ser só uma frase solta em um fundo colorido. 

Por isso, é necessário repetir quantas vezes for preciso qual a sua importância. Uma das pessoas que nos ajuda nesse sentido é Gisele Dotto Reginato, que em seu trabalho As finalidades do jornalismo definiu 12 finalidades que o jornalismo, em uma sociedade democrática, deve cumprir: 1) informar de modo qualificado, 2) investigar, 3) verificar a veracidade das informações, 4) interpretar e analisar a realidade, 5) fazer a mediação entre os fatos e o leitor, 6) selecionar o que é relevante, 7) registrar a história e construir memória, 8) ajudar a entender o mundo contemporâneo, 8) integrar e mobilizar as pessoas, 9) defender o cidadão, 10) fiscalizar o poder e fortalecer a democracia, 11) esclarecer o cidadão e 12) apresentar a pluralidade da sociedade.

Cada uma delas é importante e, durante uma pandemia, mais ainda. Mas gostaria de comentar especificamente a finalidade que, não por acaso, aparece como a primeira entre as elencadas pela autora: informar de modo qualificado. É essa a finalidade central do jornalismo. E, de acordo com Reginato, para ser qualificada, a informação deve ser verificada, relevante, contextualizada, plural e envolvente.

Se pensarmos na situação atual que vive o jornalismo brasileiro, é possível perceber que buscar informações verificadas, relevantes e contextualizadas em relação ao coronavírus tornou-se uma tarefa árdua. A fonte que deveria ser a mais confiável neste momento é aquela que esconde dados, não acredita no que a ciência diz, faz questão de dar informações erradas para confundir o cenário e não só evita como ataca diariamente a imprensa. 

O esforço dos jornalistas brasileiros precisa ser em dobro, porque, além de não contar com informação confiável por parte do presidente da República, precisa a todo o momento desconstruir o seu discurso, utilizando outras fontes de forma plural para, aí sim, verificar as informações e compreender o que é realmente relevante.

 Mas é a condição de a informação qualificada ser envolvente que nos leva de volta ao problema inicial que me motivou a escrever este texto. O jornalismo precisa estabelecer uma relação emocional com o seu público. É necessário que o discurso jornalístico seja envolvente para que o público tenha o desejo de se informar a partir dele. 

O sociólogo Colin Campbell diz que o que verdadeiramente pode julgar se alguma coisa é ou não real é o poder que ela tem de nos suscitar uma reação emocional. Para ele, é essa reação emocional que nos faz sentir vivos e é o desejo que nos ajuda a dizer quem somos. Ou seja, ao desejar intensamente, a pessoa se sente viva. 

A pandemia do coronavírus tem mostrado a cada dia o quanto o jornalismo é fundamental para que possamos entender o que está acontecendo. Mas estamos vivendo uma situação extremamente dolorosa, e as emoções que nos movem a procurar informações sobre a pandemia são quase todas pesadas: é o medo, é a tristeza, é a ansiedade. São opostas à vida.

É aí que a frase solta leva vantagem. Ela faz parte de um discurso que, desde seu início, se baseou só na emoção. 

É justamente essa condição emocional, neste caso, totalmente afastada da razão, que faz alguns desejarem e acreditarem nas palavras de “um mito”. 

Essas pessoas que seguem cegamente o presidente se sentem vivas e empoderadas para reproduzir um discurso vazio, sem verificação e sem o suor do trabalho de um jornalista.

 Dessa forma unicamente emocional, fazem parte de um grupo e se sentem vivas. E, para aqueles que dependem apenas da condição emocional para se manter no poder, a informação qualificada que se baseia também na verificação, na relevância, na contextualização e na pluralidade tem que ser combatida. Para esses, o discurso jornalístico realmente é um inimigo. 

Espero que não seja necessária a emoção da dor extrema para que essas pessoas entendam que o jornalismo não é o inimigo. Ele é talvez um dos poucos caminhos que ajudarão, neste momento, a salvar vidas.


Thaís Furtado é Professora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da UFRGS

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