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Uma greve de 30 anos

Publicado em: 24/07/2020

 

de Roger Lerina

 

 

 

 

"Não Toque em Meu Companheiro", novo documentário da diretora Maria Augusta Ramos, recupera a luta histórica e de solidariedade dos funcionários da Caixa Econômica durante a greve de 1991

Uma das principais características dos documentários de Maria Augusta Ramos é a aposta na eloquência das imagens e das falas de seus personagens, para além de comentários que venham a ser acrescidos pela realizadora. Muito da contundência de Justiça (2004), Juízo (2008) e Morro dos Prazeres (2013), espécie de tríptico que retrata o sistema judiciário e policial brasileiro contemporâneo, repousa justamente nessa abstenção – relativa e apenas em parte, por óbvio – da diretora em interferir de forma explícita com suas considerações a respeito da realidade que registra. Já em O Processo (2018), filme selecionado para o Festival de Berlim e que recupera em imagens inéditas e reveladoras os bastidores do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, a documentarista permite-se comentar o que é mostrado em cena com textos informativos que costuram o desenrolar dos episódios – e esse excesso de opinião resulta às vezes reiterativo, diluindo um tanto a seca robustez da obra. 

Em Não Toque em Meu Companheiro (2020), novo longa de Maria Augusta – que será tema em outubro de uma mostra na Cinemateca de Toulouse, na França –, a palavra volta a ser privilégio de quem vivenciou o que está sendo relatado. O filme acaba de estrear diretamente nas plataformas de streaming NetNow, Oi Play, Vivo Play, FilmeFilme e Looke.

Não Toque em Meu Companheiro reconstrói uma luta histórica e de solidariedade do sindicalismo brasileiro: em 1991, cerca de 35 mil trabalhadores da Caixa Econômica Federal se mobilizaram pela reintegração de 110 colegas demitidos após uma greve da categoria, pagando seus salários durante um ano até sua readmissão. Ao reencontrar esses trabalhadores hoje em São PauloBelo Horizonte Londrina – cidades onde estavam os bancários demitidos –, o filme traça um paralelo entre o período Collor, com suas medidas severas de redução do Estado, e o atual governo, que inaugura um novo ciclo neoliberal no país.

“Através de Jair Ferreira, da Fenae (Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal), fui apresentada a essa história incrível de solidariedade dos trabalhadores da Caixa em 1991. Acho que é fundamental contar essa história neste momento pelo qual estamos passando no Brasil e no mundo, no tocante às relações de trabalho e neste cenário de crescente redução de direitos”, afirma a diretora.

A reflexão sobre as relações atuais no mundo do trabalho é talvez o principal destaque de Não Toque em Meu Companheiro – frase que foi um dos lemas do movimento de 1991. O filme reúne em grupos esses antigos colegas de luta sindical, que revisitam as circunstâncias e consequências daquela mobilização e traçam paralelos entre a política econômica e social do governo federal há quase 30 anos com a cartilha administrativa da atual gestão. A partir desses comparativos evidencia-se nas falas dessas testemunhas a longa construção engendrada nas últimas décadas de interpretações distorcidas, estigmatizações e depreciações da coisa pública e de seus servidores: a acusação de suposta ineficiência do Estado e sua máquina, a cristalização da visão de que o contribuinte sustenta um funcionalismo inepto com altos salários e privilégios, a cobrança por desempenho lucrativo e competitivo dos bancos de vocação social como a Caixa, a argumentação de que os direitos trabalhistas são um empecilho ao crescimento econômico, a precarização e "uberização" do emprego instigando trabalhadores do setor privado e mesmo público a ilusoriamente se imaginarem como empresários e patrões de si próprios.

Talvez a mais dura constatação no filme, no entanto, seja perceber, quando companheiros velhos de guerra e novos bancários estão conversando juntos, que a solidariedade e a clareza a respeito da função social de seu trabalho e da instituição para a qual trabalham, valores que cimentaram o movimento grevista de 1991 – e que, de resto, estão na base das lutas sindicais –, não encontram o mesmo eco hoje. Ainda que os mais jovens distingam os dilemas e desafios que a categoria e seu trabalho estão enfrentando hoje, não há em seus rostos nem uma dose mínima da disposição combativa que ainda se percebe nos semblantes da maioria dos veteranos – os novos apenas reconhecem resignados o excesso de trabalho nas agências, as demandas incessantes e o crescimento do individualismo.

“Se os sindicatos não se atualizarem nas maneiras de se comunicar e representar os que estão aí agora, a tendência é eles irem minguando até deixarem de existir”, alerta um dos jovens bancários. “A gente está num momento em que não temos tempo de perguntar se seu colega está bem ou com algum problema. E a gente vai deixando isso passar, e ficamos individualistas”, pondera outra.

Muita coisa mudou no país nas últimas três décadas. Não Toque em Meu Companheiro, porém, lembra que a desqualificação dos compromissos e serviços sociais básicos do Estado e de seus funcionários é uma estratégia antiga daqueles que querem malbaratar o que é público no Brasil para torná-lo privado a preço de banana. Retornar a esse episódio 30 anos depois lembra a necessidade urgente de trazermos de volta à pauta conceitos e atitudes que parecem hoje andar fora de moda, como altruísmo, empatia e espírito público.

 

Não Toque em Meu Companheiro: * * * 

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

Assista ao trailer de Não Toque em Meu Companheiro:

https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=xfVQP_k-iCI&feature=emb_logo

 

 

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