É Narciso? Não. Deltan! (por Adalberto Paulo Klock)

Publicado em: 10/09/2019

 

por Adalberto Paulo Klock (*)

A mitologia grega criou a lenda de Narciso, filho do deus rio-Cefiso e da ninfa Liríope. Era de singular beleza e, ao nascer, o adivinho Tirésias vaticinou-lhe vida longa, porém, jamais poderia contemplar a própria beleza. Ocorre que certa vez viu seu reflexo nas águas do lago, e apaixonou-se por sua imagem. Embevecido, ficou a observá-la até consumir-se. Ali nasceu uma flor a qual deram seu nome.

O Brasil nunca terá, infelizmente, a cultura ou o senso filosófico dos gregos, mas temos a cada dia mais, no nosso cotidiano, “estórias” tão ou mais impressionantes quanto as lendas europeias.

A história de Narciso, criador do narcisismo, está ultrapassada. Temos, entre nós, pessoas tão pretensiosas quanto aquele: temos Deltans.

Já alertávamos, há quase cinco anos, a Lava-jato era um grande engodo jurídico, um pastelão feito por pessoas medíocres. Ao assistir alguns interrogatórios feitos pelo Moro, senti vergonha, era um justiceiro. O proceder era de magistrado totalmente alheio à lei, buscando sua versão da justiça. E hoje se sabe, sua versão foi a da venda e destruição do Brasil, da perseguição aos adversários políticos de sua cruzada, que o diga o Almirante Othon, e da proteção dos crimes e corrupções daqueles que lhe apoiava.

Essa sandice jurídica, de viés medieval, nas palavras do extinto Ministro Teori Zavaski, abarcou grande parte dos operadores do direito. Uma parte por ignorância jurídica e por serem fiéis ouvintes da Globo, e outra, por preconceito ideológico. Mas nada se compara ao nosso narciso Deltan.

Deltan Dallagnol, pastor Batista, diz que hoje só dorme com soníferos. Desde que The Intercept começou a publicar as conversas da Lava Jato, ele não mais teve o sono dos justos. As revelações o desnudaram, trouxeram-no à claridade, e o que se viu não é nada bonito ou digno. Seus pecados envolvem muitas coisas, começando pela miserabilização de todo um povo, e tudo pelo elitismo jurídico, que se atribuía, e pela absoluta falta de freio institucional, social e moral.

Deltan é caso de estudo em um ambiente apropriado, como o manicômio. A sua atuação nos diálogos internos da Lava Jato já era algo impressionante, no péssimo sentido, a um Procurador da República. Porém, as novas revelações mostram um indivíduo sem noção do que representava – a Instituição do Ministério Público Federal – e sem noção do ridículo. Ele criou um grupo no Telegran no qual só ele fazia parte, e ele mandava mensagem para ele mesmo, e respondia para si mesmo. Pedia conselhos e ele mesmo respondia. Por exemplo, ele se indagava se era o procurador mais famoso do Brasil, e ele respondia que não, que o mais famoso era o Carlos Fernandes. E há muito mais, e tudo muito estranho e absurdo, e o Deltan não estava sozinho em sua sandice.

Deltan, Moro e toda trupe que compôs a Lava Jato, hoje se sabe, tinham somente projeto de poder, de derrubada de governo que não conseguiram vencer no voto. Por agirem fora da lei, todos os operadores do direito deveriam ter se oposto à Lava Jato, mas não, até o próprio TRF4 aderiu de corpo e alma e decidiu que “o momento era de exceção e exigia medidas de exceção”. E fica a pergunta, da qual gostaria uma resposta técnica dos operadores do direito: Como é possível silenciar ou dormir com essa frase do TRF4?

Estamos fazendo história, pelo menos no neologismo, pois Moro será a representação dos justiceiros. Ninguém mais será justiceiro, será moro, ou estará morolisando. E os vaidosos e apaixonados por si, os egocêntricos em geral, não serão mais conhecidos como narcisistas, nas deltanistas.

O buraco em que enfiaram o Brasil está cada dia mais tenebroso.

 

(*) Adalberto Paulo Klock é servidor público.

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