Escravos? (por Adalberto Paulo Klock)

Publicado em: 04/11/2019

por Adalberto Paulo Klock (*)

 

Somos escravos ou somos livres? Pergunta intrigante.

A escravidão negra e índia foi um longo período da história. E foi religiosa, pois entendiam negros e índios como sem alma, meros animais escravizáveis. A discussão durou séculos em Roma e na Igreja Católica, que dominava o mundo ocidental à época. Enquanto isso índios e negros eram assassinados por facínoras brancos cheios de fé religiosa, explorando-os em trabalhos exaustivos, com crueldades sem fim, sem comida e até caírem mortos, como escreveu Frei Bartolomé de Las Casas. Posteriormente, esses senhores brancos e religiosos optaram por preservarem a vida dos escravos, eram patrimônio e poderiam render mais vivos. Assim, passaram a dar-lhes comida, pousada, roupas e outros cuidados. Até a chibata devia ser cautelosa, poderia estragar a mercadoria (carne negra ou índia). Ao fim, a religião impôs a escravidão aos índios e negros.

Antes da Idade Média e quando ainda a religião não dominava o mundo, a escravidão era aceita e considerada normal, mas não em função da cor da pele ou origem do indivíduo. Qualquer um podia ser escravo, fosse branco, preto, amarelo ou vermelho, bastava ser apreendido, cair em desgraça ou vencido seu povo pelo invasor. A escravidão era democrática! A religião tornou a escravidão classista.

Mas, queremos aqui comparar o lucro patronal com o trabalho atual e o da época da escravidão negra. Há poucos registros daquela época, mas a produção agrícola era precária e pouco produtiva. O custo de aquisição e manutenção dos escravos (comida, roupas, senzala, capitães do mato) tornava o lucro pouco além da produção do escravo, quando muito o dobro do custo. Assim, muitos escravos geravam bastante lucro, mesmo baixo o lucro por escravo. O cálculo seria, hoje, um lucro de R$ 800,00 por escravo. Mas, multiplicando por 80, 100 ou 200 daria um bom valor para manter o senhorio bem gordo e faceiro.

Porém, nos dias atuais a relação é gritante. Exemplo: O Banco Itaú lucrou R$ 25 bilhões em 2018. Ele tem 93.345 funcionários com salário médio de R$ 4.000,00. Fazendo o cálculo se vê que o Banco gastou R$ 5 bilhões com os funcionários, mas lucrou R$ 25 bilhões, 500% acima do gasto com seus trabalhadores.

Essa é a regra, mais ou menos, mas sempre é assim: quem produz, pouco ganha de sua produção. Para equalizar isso criou-se o Estado que deveria tributar os excedentes e redistribuir entre todos, mas não o faz. A explicação de Eduardo Moreira para isso é absolutamente correta, valendo a pena vê-lo em suas lições no Youtube. Recomendo.

Hoje não precisamos da religião para justificar a escravidão. Ela é implantada pelo grande capital e pelo sistema capitalista, e ainda nos mentem e acreditamos que somos livres.

Greve dos dinossauros

Os servidores do Judiciário entraram em greve no dia 24/09/2019, em face do Projeto de Lei 93/2017 que propõe extinguir o cargo de Oficial Escrevente e estava para ser votado pela Assembleia Legislativa, reivindicando, pela ordem, a valorização dos servidores com a migração, e não-extinção, do cargo de oficial escrevente para técnico judiciário, equiparação do vale refeição, readequação do auxílio condução dos oficiais de justiça e reclamar as perdas salariais de 87%.

O Presidente do TJ/RS, Carlos Duro, simplesmente ignorou os pedidos dos servidores e os vários avisos de greve em face da discordância dos servidores com a extinção dos cargos. Procedeu de forma autoritária e intransigente e não abriu negociação, fazendo a greve iniciar e perdurar pela não retirada do projeto da Assembleia Legislativa.

Efetivamente o Presidente e a Cúpula do TJ são os culpados pela greve e pelo imenso prejuízo causado à sociedade, por dirigirem um órgão tão importante à Democracia do país e do Estado sem qualquer diálogo, transparência e democracia. E tudo isso porque resolveram economizar uma miséria que seria cumprir a determinação do CNJ de equiparar as entrâncias, com unificação dos cargos. No fim, essa cupidez da cúpula do TJ/RS está produzindo um grande dano a toda a sociedade, sendo deles, e exclusivamente deles, a culpa pela greve no Judiciário. Mas eles jogam as culpas em cima dos servidores, pois acostumados com as inconsequências de seus atos. Quiçá um dia o Judiciário será democrático e seguirá a Constituição Federal, e todos que nele exerçam cargo respondam por seus atos diretamente à sociedade, e não possam mais se esconder na proteção administrativa e nem culpar os outros por seus erros, omissões e prepotências.

E os dinossauros, como carinhosamente os servidores se apelidaram por serem chamados de obsoletos pela Administração do Tribunal, lutam para não serem extintos.

 

(*) Adalberto Paulo Klock é servidor público.